Todos os anos são detetados em Portugal cerca de 9 mil novos casos de cancro da mama, o que equivale a cerca de 11,6 % de todos os diagnósticos de cancro no país. O cancro da mama é a doença oncológica mais frequente nas mulheres portuguesas e a principal causa de morte por cancro no sexo feminino. No nosso país, ainda morrem anualmente mais de 2 mil mulheres devido a esta doença. Programa nacional de rastreio do cancro da mama Portugal tem um programa organizado de rastreio do cancro da mama desde a década de 1990, coordenado pela Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), em articulação com o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Desde 2025, o programa foi alargado às mulheres com idade entre os 45 e os 74 anos , seguindo as novas orientações europeias, e realiza-se de dois em dois anos, através de mamografia. Entre 1990 e 2024, foram realizadas mais de 6 milhões de mamografias e identificadas cerca de 36 mil mulheres com lesões suspeitas, que foram encaminhadas para avaliação médica. O rastreio salva vidas e também qualidade de vida O rastreio regular é essencial para a deteção precoce do cancro da mama , permitindo tratamentos menos agressivos e com maior taxa de sucesso. Permite uma redução até 40% na mortalidade por cancro da mama. Diagnósticos de cancro da mama mais precoces significam cirurgias menos invasivas e menores taxas de quimioterapia. Quando diagnosticado no estadio 0 ou I, o cancro da mama tem taxas de cura superiores a 95%. Em Portugal, a taxa de sobrevivência a 5 anos é superior a 85 %, e está entre os melhores resultados da Europa. Quais são as recomendações internacionais para o rastreio do cancro da mama? As recomendações atuais para o rastreio do cancro da mama variam ligeiramente entre as principais sociedades científicas norte-americanas e europeias. Para a população em geral, sem antecedentes familiares ou genéticos conhecidos : O American College of Radiology (ACR) e a Society of Breast Imaging (SBI) recomendam iniciar o rastreio aos 40 anos, com mamografias anuais, e sem limite de idade superior fixo desde que o estado de saúde o permita. A US Preventive Services Task Force (USPSTF) recomenda a mamografia bienal entre os 40 e os 74 anos, com base em nova evidência de benefício nessa faixa etária. A European Society of Breast Imaging (EUSOBI) e a European Society of Radiology (ESR) recomendam o rastreio mamográfico bienal entre os 50 e os 69 anos, podendo este ser estendido até aos 73-75 anos. O rastreio entre os 40 e os 49 anos pode ser considerado, especialmente com periodicidade anual ou bienal, consoante os recursos e preferências. Em mulheres com mamas densas (BI-RADS C ou D) : A EUSOBI recomenda que sejam informadas sobre o impacto da densidade mamária na sensibilidade da mamografia e que considerem a realização de exames complementares como ecografia, mamografia espectral com contraste (CESM) ou ressonância magnética, mesmo sem fatores de risco adicionais. Em situações de risco genético elevado (por exemplo, mutações BRCA1 ou BRCA2) : A ACR e EUSOBI recomendam iniciar o rastreio por volta dos 25-30 anos, com ressonância magnética anual e mamografia intercalada. A imagiologia mamária está mais sofisticada do que nunca Mamografia digital com tomossíntese Aumenta a sensibilidade em mamas densas e na deteção de microcalcificações e reduz falsos positivos e biópsias desnecessárias. Mamografia com contraste endovenoso (CESM) Técnica inovadora que combina produto de contraste endovenoso com mamografia digital. Pode estar indicada para mulheres com mamas densas ou em casos com dúvidas diagnósticas após mamografia convencional. Ecografia mamária Método complementar à mamografia. É ideal em mulheres jovens ou gestantes e útil na caracterização de nódulos não visíveis na mamografia. Ressonância magnética mamária Elevada sensibilidade (> 95%) na deteção precoce do cancro da mama. É o exame de referência no rastreio de mulheres com risco genético elevado. Também é útil em mulheres com mamas densas ou para avaliação da extensão do tumor e resposta à terapêutica. E o autoexame e toque clínico: ainda algum papel? Têm, mas como complemento . O autoexame da mama realizado mensalmente permite à mulher conhecer melhor o seu corpo e, conhecendo-o bem, permite detetar alterações que possam ocorrer. Já o exame clínico realizado por profissionais continua relevante, especialmente em contextos com menor acesso a exames de imagiologia. Invista na sua proteção O rastreio precoce não é apenas um ato clínico, é um gesto de proteção , um investimento pessoal e coletivo na vida e na qualidade de vida das mulheres. Imagine o seu corpo como uma casa. Uma casa que conhece bem, onde tudo parece no lugar certo. Mas e se, um dia, um intruso silencioso se escondesse num quarto pouco usado, sem deixar rasto? Sem arrombar portas. Sem barulho. Sem dar sinais. Este intruso pode ser o cancro da mama, uma doença que pode começar devagar, silenciosamente, sem sintomas, sem deixar rasto. E que, se for descoberto muito tarde, já tomou conta da casa inteira. O rastreio é a luz que se acende antes do susto. Não espere pelo alarme. Cumpra os rastreios aconselhados. Entre no quarto escuro, descubra antes e viva mais. O rastreio do cancro da mama pode mudar tudo. A ciência está do lado da mulher. A tecnologia também. Agora é preciso que cada mulher também esteja do lado de si mesma. Referências American College of Radiology (ACR), Society of Breast Imaging (SBI). ACR and SBI continue to recommend annual breast cancer screening starting at age 40. ACR.org. 2024. US Preventive Services Task Force (USPSTF). Breast Cancer: Screening Recommendation Statement. JAMA. 2023;329(20):1740–1749. EUSOBI Recommendations for Breast Cancer Screening 2023. European Society of Breast Imaging; European Society of Radiology. Insights Imaging. 2023. Autores : Paulo Brandão , com a colaboração de Cândida Ventoso Castineira Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.